A propósito da possibilidade da sua candidatura à Presidência da República, Manuel Alegre, em entrevista publicada na edição de 6 de Julho do Jornal de Letras, refere que “o poeta está mais disponível para essa aventura, está com mais vontade que o político. O poeta está tentado, o político não”. Esta afirmação levou-me a pensar que um país de poetas merece um candidato poeta. Um argumento ingénuo. Ingénuo e injusto. Aprecio Manuel Alegre essencialmente pela firmeza do seu carácter. Sempre o apreciei. Apesar de defender ideias que não partilho, estas são tão claras, coerentes e democratas que facilmente convivo com elas. Admiro o escritor, o poeta e devoro todos os seus escritos. Respeito o Deputado Socialista que não hesita na palavra esquerda e que defende que a liberdade apesar de não estar ameaçada, tem de ser defendida e alimentada. Gostei da ideia de ter um candidato a Presidente da República que tem a noção de política como um serviço público e não como uma fonte de benefícios próprios e que lutou para ter um Estado ao qual todos nós podemos chamar Estado. Com esta candidatura a politica saía prestigiada. O PS também. O eleitorado sairia a ganhar. Os princípios e valores também. O País de Abril, sobretudo. Estes sim, são argumentos válidos. Depois dos recentes acontecimentos, o poeta, no seu habitual artigo mensal do Expresso, faz uma metáfora da situação. Refere que não sabe ao certo em que guerra está, nem tão pouco quem são os dele ou por que causa ou País está a combater, e que se limita a defender aquilo que designa de o seu “ quadrado “. O texto termina com uma afirmação admirável: “ Um homem não se rende, seria aliás uma grande falta de educação “. Esta frase reportou-me para o seu “ Che”. Sem boinas, estrelas, artefactos ou ícones: “ A qualquer momento / qualquer um / pode dizer: eu sou o Che “. Qualquer um? Não o direi. Grandes homens como o Manuel Alegre podem ser Che, porque ser Che é antes de mais ser. É possuir um foco guerrilheiro e uma insubmissão. É existir em primeira mão, é realmente nascer e tornar-se imortal.
“ Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não “